Em 1997, um artigo publicado na Gazeta do Povo, de autoria do professor Francisco Zanchi Daher, alertava que o ensino de engenharia civil no Brasil permanecia essencialmente o mesmo de 50 anos antes, apesar das profundas transformações tecnológicas já em curso à época. Quase três décadas depois, a pergunta que se impõe é inevitável: avançamos o suficiente ou apenas modernizamos a superfície de um modelo ultrapassado?

“O ensino de Engenharia Civil que se ministra hoje é o mesmo de 50 anos atrás, apesar de todas as profundas mudanças tecnológicas que estamos vivenciando.”
— Francisco Zanchi Daher, 1997

A resposta, infelizmente, exige honestidade: avançamos, mas não na velocidade nem na profundidade que o país precisa.

De lá para cá, a engenharia civil passou por uma verdadeira revolução tecnológica. Ferramentas como BIM, simulações computacionais avançadas, inteligência artificial e sistemas digitais integrados transformaram profundamente a prática profissional. O engenheiro de hoje opera em um ambiente complexo, dinâmico e altamente tecnológico.

No entanto, ao observarmos as salas de aula, a transformação não foi proporcional.

Ainda predomina, em muitos cursos, o modelo tradicional centrado em aulas expositivas, com forte carga teórica e pouca conexão com problemas reais. A formação continua excessivamente conteudista e distante das competências exigidas pelo século XXI.

Mas há um agravante mais recente — e ainda mais preocupante.

O Brasil vem registrando uma queda expressiva no número de candidatos aos cursos de engenharia. E essa tendência não pode ser explicada apenas por fatores de mercado ou mudanças de interesse profissional. Há um problema estrutural anterior: a fragilidade da formação básica dos estudantes.

Grande parte dos jovens brasileiros conclui o ensino médio com sérias deficiências em matemática e compreensão de texto. Sem domínio adequado dessas duas competências essenciais, cursos como engenharia passam a ser percebidos como inacessíveis — ou simplesmente inviáveis.

Não se trata apenas de dificuldade técnica. Trata-se de base cognitiva.

A matemática é a linguagem da engenharia. A leitura e a interpretação são fundamentais para compreender problemas complexos, normas técnicas, projetos e contextos multidisciplinares. Quando essas bases não são sólidas, o estudante não apenas tem dificuldade — ele sequer se vê capaz de ingressar nesse caminho.

O resultado é um ciclo perverso:
menos preparo → menor interesse → menos candidatos → menor massa crítica → impacto na qualidade e na inovação.

Esse fenômeno revela que o problema da engenharia começa muito antes da universidade.

Ele está na educação básica.

E aqui reside um dos maiores desafios nacionais: não haverá engenharia forte sem uma base educacional sólida em matemática e linguagem.

O desalinhamento entre formação e mercado, portanto, não é apenas pedagógico — é sistêmico.

O Brasil necessita urgentemente de uma engenharia forte, inovadora e alinhada às demandas do desenvolvimento econômico. Mas isso exige uma abordagem integrada: reformar o ensino superior sem enfrentar as fragilidades da educação básica é atacar apenas parte do problema.

Se em 1997 a crítica era de estagnação frente às mudanças tecnológicas, em 2026 o diagnóstico é ainda mais amplo: temos um sistema educacional que, em diferentes níveis, não conversa com as exigências do futuro.

A engenharia brasileira não pode continuar sendo ensinada com a lógica do século passado — nem pode depender de uma base educacional que não prepara adequadamente seus futuros alunos.

Sem enfrentar essa realidade, continuaremos discutindo os efeitos, sem atacar a causa.


Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
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