O ranking QS 2026 de Medicina expôs uma contradição que o Brasil já não pode mais ignorar: somos capazes de produzir excelência global — e, ao mesmo tempo, expandir mediocridade em larga escala.

A Universidade de São Paulo figura entre as melhores do mundo e lidera a América Latina com folga. Ao lado dela, Universidade Estadual de Campinas e Universidade Federal de São Paulo sustentam um núcleo de formação médica comparável a países desenvolvidos.

Mas o ponto central não é esse.

O ponto central é o contraste.

Chile: menos escala, mais consistência

O Chile aparece com menos instituições no ranking — mas com um padrão muito mais homogêneo.

Universidades como a Pontificia Universidad Católica de Chile e a Universidad de Chile mantêm desempenho consistente, com forte integração entre:

  • formação clínica
  • pesquisa aplicada
  • hospitais universitários estruturados

O país não tentou expandir Medicina de forma indiscriminada.
Optou por consolidar qualidade.

Resultado: menos volume, mais confiabilidade.

México: escala com estratégia — não improviso

O México também expandiu seu sistema — mas com instituições que operam com identidade clara.

A Universidad Nacional Autónoma de México e o Tecnológico de Monterrey representam dois modelos distintos, mas ambos estruturados:

  • forte base científica
  • articulação com o sistema de saúde
  • inserção internacional
  • governança institucional definida

Mesmo quando há heterogeneidade, ela ocorre dentro de um sistema com direção.

Não há a desorganização sistêmica observada no Brasil.

Brasil: excelência isolada, expansão desordenada

O Brasil lidera em quantidade de instituições no ranking.
Mas isso esconde um problema estrutural grave.

Temos:

De um lado:

  • universidades de padrão global
  • alta produção científica
  • hospitais de excelência
  • reconhecimento internacional

De outro:

  • cursos criados sem base hospitalar adequada
  • corpo docente fragmentado
  • baixa inserção científica
  • formação clínica inconsistente

Essa não é uma diferença de nível.
É uma diferença de sistema.

Chile e México operam com coerência institucional.
O Brasil opera com contradição estrutural.

O erro brasileiro: confundir acesso com qualidade

O país tomou uma decisão política clara nos últimos anos:
expandir vagas de Medicina como resposta rápida a demandas locais.

Mas ignorou o essencial:

  • formação médica exige ecossistema, não apenas sala de aula
  • exige hospital, pesquisa, supervisão intensiva
  • exige tempo, investimento e governança

Sem isso, não há expansão.
Há degradação.

E o custo não aparece imediatamente em rankings.
Aparece no sistema de saúde.

A lição que o Brasil insiste em não aprender

O ranking QS 2026 não é apenas uma fotografia.
É um diagnóstico.

Ele mostra que:

  • o Brasil já atingiu excelência internacional
  • mas falhou em transformá-la em política pública consistente

Chile e México, com menos recursos absolutos, fizeram escolhas mais coerentes.

O Brasil, com mais escala e mais universidades, escolheu o caminho mais fácil —
e mais perigoso.

A pergunta que precisa ser feita — e respondida

O Brasil quer:

  • um sistema de formação médica confiável
    ou
  • um sistema numeroso, desigual e arriscado?

Porque não é possível ter os dois.

Enquanto essa escolha não for enfrentada com clareza, o país continuará produzindo uma realidade paradoxal:

centros de excelência comparáveis ao primeiro mundo —
e uma base formativa que não garante o mínimo.

E, em Medicina, o mínimo não é suficiente.


Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/
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