O Brasil enfrenta hoje um dos seus maiores paradoxos estruturais: empresas relatam escassez de mão de obra qualificada, enquanto milhões de jovens encontram dificuldades de inserção produtiva. Esse descompasso revela um problema central — a desconexão entre educação e sistema produtivo.

Ao mesmo tempo, o país dispõe de uma das mais bem-sucedidas experiências de formação profissional do mundo em desenvolvimento: o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI).

A questão que se impõe não é mais se o Brasil sabe formar — mas sim como escalar e integrar essa capacidade ao desenvolvimento nacional.


O ABC paulista como evidência concreta

A região do ABC paulista oferece uma resposta prática a esse desafio.

Em São Bernardo do Campo, centros de formação do SENAI operam em estreita articulação com grandes plantas industriais, incluindo:

  • Volkswagen
  • Mercedes-Benz

Nesses ambientes, a formação técnica ocorre próxima ao chão de fábrica, permitindo que os alunos desenvolvam competências diretamente alinhadas às tecnologias industriais contemporâneas.

Esse modelo, já existente no Brasil, aproxima-se de um princípio fundamental do sistema alemão: formar no contexto real de produção.


A lição internacional: formar dentro da empresa

A Alemanha construiu sua competitividade industrial com base no chamado modelo dual, no qual:

  • o estudante aprende na escola;
  • e simultaneamente aprende na empresa;
  • com contrato, remuneração e certificação reconhecida.

Não se trata apenas de educação. Trata-se de uma política de desenvolvimento nacional baseada em formação produtiva.


A proposta do IVEPESP: transformar exceções em política de Estado

O Brasil não precisa importar modelos. Precisa organizar, escalar e institucionalizar aquilo que já funciona.

O IVEPESP propõe a criação do:

Programa Nacional de Formação Dual para a Nova Indústria Brasileira

Com base em cinco pilares estruturantes:

1. Formação dentro da empresa como regra, não exceção

A prática produtiva deve deixar de ser complementar e passar a ser parte obrigatória da formação técnica.

2. Contrato nacional de aprendizagem tecnológica

Todo estudante participante deve ter:

  • bolsa ou remuneração;
  • metas de formação;
  • supervisão conjunta escola-empresa;
  • certificação integrada.

3. Empresa como agente educador

Empresas devem ser reconhecidas como corresponsáveis pela formação, com:

  • incentivos fiscais;
  • acesso prioritário a financiamento;
  • reconhecimento institucional.

4. Currículos orientados pela indústria do futuro

Formação voltada para:

  • automação e mecatrônica
  • inteligência artificial aplicada
  • eletrificação automotiva
  • manufatura avançada
  • dados e qualidade industrial

5. Sistema nacional de metas e resultados

Avaliação baseada em:

  • empregabilidade
  • renda
  • produtividade
  • permanência no emprego
  • continuidade educacional

ABC paulista: laboratório nacional da nova política

O IVEPESP propõe que o ABC paulista seja oficialmente reconhecido como projeto-piloto nacional dessa política.

A escolha não é simbólica — é estratégica:

  • concentração histórica da indústria brasileira;
  • presença de grandes empresas globais;
  • experiência já existente de integração com o SENAI;
  • infraestrutura educacional e tecnológica consolidada.

O ABC reúne as condições ideais para demonstrar, em escala real, como a formação dual pode transformar a relação entre educação e desenvolvimento.


Um projeto de país, não apenas de educação

O debate sobre educação profissional não pode ser tratado como tema periférico. Trata-se de uma questão central para:

  • produtividade econômica
  • competitividade industrial
  • geração de empregos qualificados
  • redução das desigualdades
  • inserção do Brasil na economia do conhecimento

O Brasil precisa decidir se continuará formando jovens para o desemprego ou se passará a formar para a produção, a inovação e o futuro.


Conclusão: a oportunidade está posta

O país já possui instituições fortes, como o SENAI.
Já possui experiências concretas, como as do ABC paulista.
Já possui demanda do setor produtivo.

O que falta é decisão política para transformar essas experiências em política de Estado de longo prazo.

O IVEPESP entende que este é o momento de dar esse passo.


Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/
E-mail: [email protected]