Nos últimos meses, o debate sobre produtividade no Brasil voltou ao centro da agenda econômica. No entanto, ainda persiste uma tendência preocupante: tratar a produtividade como um fenômeno exclusivamente ligado a capital físico, tecnologia ou ambiente de negócios, ignorando o fator mais decisivo de todos — o capital humano.

Artigo recente de João Batista Araujo e Oliveira, publicado no Valor Econômico, reforça com clareza uma constatação que já vínhamos destacando em análises do IVEPESP: o Brasil enfrenta não apenas um problema de educação, mas uma crise estrutural de produtividade associada à baixa qualidade da aprendizagem.


O fim de um ciclo: o esgotamento do “dividendo educacional”

Durante décadas, o Brasil colheu ganhos relativamente fáceis ao expandir o acesso à educação. A entrada de gerações mais escolarizadas no mercado de trabalho elevou o capital humano médio da população.

Esse ciclo, contudo, está se encerrando.

Como aponta o artigo, esse crescimento era sustentado por um efeito demográfico — a substituição de trabalhadores menos escolarizados por outros mais escolarizados. Esse “dividendo educacional” está próximo do esgotamento.

A partir de agora, o crescimento dependerá essencialmente de um fator:
👉 qualidade da educação — e não mais quantidade.


O verdadeiro problema: aprendemos menos do que deveríamos

Os dados são contundentes:

  • O Brasil está 70 a 90 pontos abaixo da média da OCDE no PISA, equivalente a cerca de 2 a 3 anos de aprendizagem.
  • A produtividade do trabalho brasileiro gira em torno de US$ 20 por hora, contra mais de US$ 60 nos países avançados.

Ou seja:

✔ Os alunos passam tempo semelhante na escola
❌ Mas aprendem significativamente menos

Isso implica que:

👉 os mesmos anos de estudo geram menos capital humano
👉 e, portanto, menos produtividade


Educação como função de produção

Um dos pontos mais sofisticados do debate recente é a necessidade de tratar a educação sob a ótica da função de produção.

No mundo empresarial, é evidente que produtividade resulta da combinação eficiente entre:

  • capital físico
  • tecnologia
  • qualificação da equipe

No entanto, quando se trata de educação, esse raciocínio raramente é aplicado.

Essa dissociação é um dos maiores erros estratégicos do país.

👉 Educação não pode ser tratada como política social isolada.
👉 Ela deve ser tratada como política econômica central.


A armadilha da produtividade e o risco do envelhecimento

O Brasil enfrenta simultaneamente dois fenômenos estruturais:

  1. Envelhecimento da população
  2. Estagnação da qualidade educacional

Essa combinação leva a uma consequência inevitável:

👉 desaceleração estrutural do crescimento

Não se trata de um problema conjuntural. Trata-se de uma armadilha de produtividade.


Um sinal de alerta vindo do setor produtivo

Sinalizações recentes associadas à instalação de grandes projetos industriais no Brasil, especialmente em setores intensivos em tecnologia, indicam dificuldades crescentes na contratação de mão de obra qualificada em escala adequada.

Relatos envolvendo a necessidade de mobilização de profissionais estrangeiros para viabilizar operações industriais complexas evidenciam um problema estrutural:
👉 o descompasso entre a formação educacional e as demandas da economia real.

Esse fenômeno não deve ser interpretado como um evento isolado, mas como um sinal de alerta.

Em uma economia que busca atrair investimentos de maior intensidade tecnológica, a ausência de capital humano qualificado pode resultar em:

  • menor absorção de conhecimento
  • redução dos efeitos multiplicadores dos investimentos
  • limitação do desenvolvimento de cadeias produtivas locais

Inclusão social vs. inclusão produtiva: o próximo desafio

O Brasil construiu, ao longo das últimas décadas, importantes políticas de proteção social, fundamentais para a redução da pobreza e da desigualdade.

No entanto, o desafio atual vai além da inclusão social.

👉 Trata-se agora de promover inclusão produtiva.

Ou seja:

  • qualificação efetiva da força de trabalho
  • capacidade de inserção em atividades de maior valor agregado
  • geração sustentável de renda via produtividade

Sem esse avanço, corre-se o risco de consolidar um modelo em que parte da população permanece afastada das oportunidades mais dinâmicas da economia, enquanto setores produtivos enfrentam escassez de mão de obra qualificada.


Inteligência Artificial: oportunidade ou amplificador de desigualdades?

A nova economia baseada em inteligência artificial torna esse desafio ainda mais urgente.

A IA não substitui capital humano — ela o potencializa.

👉 Países com alta qualificação aceleram
👉 Países com baixa qualificação ficam ainda mais para trás

Sem uma base educacional sólida, o Brasil corre o risco de não capturar os ganhos dessa revolução tecnológica.


O impacto potencial de uma transformação educacional

As estimativas são expressivas:

  • Ganho de 15% a 25% na produtividade no curto prazo
  • Aumento de até 72% na renda, caso o Brasil alcance níveis comparáveis aos de países como a Coreia do Sul

👉 educação é o maior multiplicador econômico disponível ao país


O que precisa mudar: uma agenda de transformação real

Não se trata de ajustes incrementais, mas de uma transformação estrutural:

  • Currículo rigoroso e alinhado a padrões internacionais
  • Formação docente baseada em excelência
  • Avaliação consistente e focada em aprendizagem
  • Gestão escolar com autonomia e responsabilização
  • Uso estratégico de tecnologia e inteligência artificial na educação

Mais do que isso:

👉 é necessário tratar a educação com o mesmo rigor analítico utilizado na gestão de sistemas produtivos.


Conclusão: educação como estratégia nacional de crescimento

O Brasil já colheu os frutos da expansão quantitativa da educação. O próximo ciclo dependerá exclusivamente da qualidade.

Ignorar essa realidade significa aceitar:

  • baixo crescimento persistente
  • perda de competitividade
  • incapacidade de aproveitar a revolução da inteligência artificial

Por outro lado, enfrentar esse desafio pode representar:

👉 o maior salto de produtividade da história recente do país

A educação precisa deixar de ser vista como uma pauta setorial e passar a ocupar seu lugar legítimo:

👉 o centro da estratégia econômica nacional.


Autor

Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/
E-mail: [email protected]