A inteligência artificial está rapidamente se tornando um dos principais motores de transformação das organizações no mundo contemporâneo. Empresas globais começam a demonstrar, de forma concreta, que a adoção sistemática de sistemas inteligentes pode produzir ganhos expressivos de produtividade, reduzir custos operacionais e transformar profundamente os modelos de gestão.
Uma reportagem recente sobre a estratégia adotada pela IBM ilustra de maneira clara esse fenômeno.
A estratégia “cliente zero”
A empresa passou a adotar o conceito denominado “cliente zero”, segundo o qual a própria organização se torna o primeiro ambiente de aplicação das tecnologias que desenvolve. Antes de oferecer soluções ao mercado, a companhia utiliza suas ferramentas de inteligência artificial em seus próprios processos internos.
Essa abordagem transforma a empresa em um laboratório vivo de inovação organizacional, permitindo testar tecnologias, ajustar fluxos de trabalho e demonstrar resultados concretos.
Segundo informações divulgadas pela própria empresa, a adoção dessa estratégia já gerou economia estimada em cerca de US$ 4,5 bilhões em aproximadamente três anos, resultado de ganhos de produtividade obtidos com a automação e o uso intensivo de inteligência artificial.
Um dos efeitos mais significativos ocorreu na área de recursos humanos, cujo orçamento foi reduzido em cerca de 40% após a implementação de sistemas automatizados capazes de responder à maioria das consultas feitas pelos funcionários.
Hoje, mais de 90% das interações internas relacionadas a recursos humanos são atendidas por sistemas baseados em inteligência artificial.
Outras áreas corporativas — como suporte tecnológico, marketing, vendas e finanças — também passaram a utilizar agentes inteligentes para automatizar tarefas administrativas, organizar fluxos de informação e apoiar processos de tomada de decisão.
Executivos da empresa destacam que o impacto mais relevante da inteligência artificial não está apenas na tecnologia em si, mas na capacidade de reorganizar os processos de trabalho dentro das organizações.
A nova fronteira da produtividade
A experiência internacional sugere que a inteligência artificial representa uma nova fronteira de aumento de produtividade, comparável, em certos aspectos, às grandes transformações tecnológicas associadas à eletrificação ou à informatização das empresas nas décadas anteriores.
Entretanto, para que seus benefícios sejam plenamente capturados, as organizações precisam promover mudanças estruturais, incluindo:
- redesenho de processos organizacionais
- integração de bases de dados e sistemas digitais
- adoção de novos modelos de governança tecnológica
- capacitação de profissionais para atuar em ambientes cada vez mais automatizados
A inteligência artificial chega aos setores tradicionais
Embora frequentemente associada às grandes empresas de tecnologia, a inteligência artificial começa a transformar também setores tradicionais da economia.
Um exemplo interessante surge no mercado de gestão de condomínios, um setor que movimenta bilhões de reais por ano no Brasil e envolve grande volume de atividades administrativas, atendimento a moradores e gestão financeira.
Historicamente, essas atividades dependem fortemente de trabalho humano e de processos repetitivos.
Nos últimos anos, entretanto, começaram a surgir iniciativas voltadas à aplicação de inteligência artificial generativa e automação de processos na administração condominial.
Nesse contexto, destaca-se a criação do Lello Lab, laboratório de inovação da Lello Condomínios, que vem desenvolvendo soluções tecnológicas destinadas à modernização da gestão do setor.
Entre as aplicações em desenvolvimento estão:
- assistentes virtuais para atendimento a moradores
- automação de rotinas administrativas
- organização inteligente de documentos e contratos
- apoio à gestão financeira e operacional
- análise de dados para apoio à tomada de decisão
Essas iniciativas indicam que a inteligência artificial pode contribuir significativamente para a profissionalização e modernização da gestão condominial, reduzindo custos operacionais e melhorando a qualidade dos serviços.
Uma nova agenda de pesquisa aplicada
A digitalização da gestão condominial também abre oportunidades relevantes para pesquisa aplicada em ciência de dados e inteligência artificial.
Condomínios produzem continuamente grandes volumes de dados relacionados a:
- consumo de energia e água
- manutenção predial
- gestão financeira
- uso de infraestrutura
- prestação de serviços
A análise estruturada dessas informações pode permitir o desenvolvimento de modelos preditivos capazes de antecipar necessidades de manutenção, melhorar a eficiência energética e otimizar a gestão financeira dos empreendimentos.
Esse tipo de abordagem abre espaço para novas formas de colaboração entre empresas, universidades e centros de pesquisa.
O desafio brasileiro
A difusão da inteligência artificial representa uma oportunidade estratégica para aumentar a produtividade da economia brasileira.
Entretanto, para que esse potencial seja plenamente aproveitado, será fundamental ampliar:
- a formação de profissionais em ciência de dados e inteligência artificial
- os programas de transformação digital nas empresas
- o fortalecimento de centros de pesquisa e inovação tecnológica
- a integração entre universidades, empresas e políticas públicas de inovação
Sem esse esforço estruturado, existe o risco de que o país amplie ainda mais o gap de produtividade em relação às economias mais avançadas, justamente em um momento em que a inteligência artificial passa a desempenhar papel central na competitividade global.
Conclusão
A inteligência artificial já começa a redefinir os modelos de organização do trabalho e da produção.
Experiências internacionais mostram que seus maiores benefícios surgem quando a tecnologia é aplicada diretamente na transformação dos processos internos das organizações.
Ao mesmo tempo, iniciativas emergentes no Brasil indicam que essa transformação começa a alcançar setores tradicionais da economia.
A construção de uma agenda nacional baseada em inteligência artificial, ciência de dados e inovação organizacional será fundamental para ampliar a produtividade, fortalecer a competitividade e preparar o país para os desafios da economia do conhecimento.
Autores
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/
E-mail: [email protected]
Helio Henrique Villela Dias
Engenheiro de Computação e Cientista de Dados
Lello Lab
E-mail: [email protected]