O debate contemporâneo sobre o papel das universidades públicas tem evidenciado a necessidade de fortalecer os mecanismos que conectam o conhecimento acadêmico com a sociedade. Nesse contexto, as atividades de cultura e extensão universitária assumem papel estratégico ao permitir que os resultados da pesquisa, do ensino e da inovação científica sejam compreendidos, apropriados e utilizados pela população.
O novo pró-reitor, Amâncio Jorge Silva Nunes de Oliveira concedeu entrevista publicada no Jornal da USP destaca que a cultura e a extensão funcionam como uma verdadeira “tradução da universidade para a sociedade”, tornando acessíveis conhecimentos que muitas vezes permanecem restritos ao ambiente acadêmico. Museus universitários, centros de ciência, programas culturais, exposições, cursos abertos, projetos comunitários e eventos de divulgação científica constituem importantes instrumentos de difusão do conhecimento produzido nas universidades.
Essas iniciativas desempenham papel fundamental para fortalecer a legitimidade social da universidade pública, evidenciando os benefícios concretos do investimento público em educação superior, ciência e tecnologia. Ao mesmo tempo, contribuem para o processo de alfabetização científica da sociedade, aproximando cidadãos de temas complexos relacionados à ciência, saúde, inovação tecnológica, sustentabilidade e desenvolvimento econômico.
Entretanto, apesar de sua relevância social, as atividades de cultura e extensão ainda enfrentam desafios institucionais importantes. Em muitos sistemas de avaliação acadêmica, essas atividades continuam sendo menos valorizadas do que a produção científica tradicional, cuja avaliação se apoia em métricas consolidadas como publicações, citações e índices bibliométricos. A natureza mais difusa e socialmente distribuída das atividades de extensão torna mais difícil a criação de indicadores equivalentes de impacto.
Nesse sentido, o IVEPESP considera que cultura e extensão devem ser reconhecidas como o terceiro eixo estruturante da universidade, ao lado do ensino e da pesquisa. A valorização institucional desse eixo é fundamental para ampliar o impacto social das universidades brasileiras.
Outro aspecto relevante é o papel das universidades como infraestrutura cultural e científica do país. Museus universitários, centros de ciência, bibliotecas, observatórios astronômicos, espaços de inovação e programas de difusão científica constituem ativos estratégicos para a formação cultural e científica da população. Em diversos países, essas estruturas são reconhecidas como parte essencial da política científica e cultural nacional.
O Brasil possui exemplos históricos importantes nesse campo. Um dos mais emblemáticos foi a Estação Ciência da Universidade de São Paulo, criada com o objetivo de aproximar ciência e sociedade por meio de exposições interativas e atividades educativas. Durante décadas, esse espaço desempenhou papel relevante na formação científica de milhares de jovens e estudantes. Sua localização estratégica, com acesso facilitado por transporte ferroviário, ampliava significativamente a visitação pública. A desativação da Estação Ciência representa uma perda importante para a difusão científica no país e reforça a necessidade de iniciativas que retomem esse espírito de aproximação entre universidade e sociedade.
Para o IVEPESP – Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo, esse tema também se conecta com a necessidade de ampliar a compreensão do impacto social das universidades brasileiras. Nesse sentido, a proposta de criação de um Observatório do Ensino Superior, iniciativa defendida pelo instituto, poderá contribuir para analisar de forma sistemática indicadores relacionados não apenas ao ensino e à pesquisa, mas também ao impacto cultural e social das instituições universitárias.
A valorização da cultura e da extensão também possui dimensão estratégica internacional. Universidades que mantêm forte presença cultural e programas robustos de difusão científica ampliam sua visibilidade global e contribuem para o fortalecimento do chamado soft power científico e cultural, reforçando a diplomacia científica e a cooperação internacional.
Diante desse cenário, o IVEPESP considera fundamental fortalecer as políticas de cultura e extensão como parte integrante de uma estratégia nacional de valorização do ensino superior.
Recomendações do IVEPESP
1. Reconhecimento da cultura e extensão como terceiro eixo da universidade
Os sistemas de avaliação institucional devem incorporar de forma explícita o impacto social das atividades de cultura e extensão, garantindo maior reconhecimento dessas ações nas políticas acadêmicas e na progressão das carreiras universitárias.
2. Desenvolvimento de métricas de impacto social das universidades
O país precisa desenvolver metodologias capazes de medir de forma sistemática o impacto social, cultural e educacional das universidades, incluindo indicadores relacionados à difusão científica e à interação com a sociedade.
3. Ampliação da infraestrutura cultural e científica universitária
Museus universitários, centros de ciência, espaços de inovação e programas de divulgação científica devem ser fortalecidos como parte da infraestrutura científica e cultural do país.
4. Integração entre ensino, pesquisa e extensão
Projetos acadêmicos devem estimular maior integração entre essas três dimensões, permitindo que atividades de ensino e pesquisa gerem desdobramentos diretos em iniciativas de impacto social.
5. Inserção internacional e diplomacia científica
Programas de cultura e extensão podem contribuir para ampliar a presença internacional das universidades brasileiras, reforçando a diplomacia científica e a cooperação cultural.
O IVEPESP entende que fortalecer a cultura e a extensão universitária significa ampliar o impacto social da ciência, democratizar o acesso ao conhecimento e consolidar o papel das universidades como instituições centrais para o desenvolvimento científico, cultural e tecnológico do país.
Em um cenário global marcado por rápidas transformações científicas e tecnológicas, consolidar essa interface entre universidade e sociedade é condição essencial para promover inovação, cidadania científica e desenvolvimento sustentável.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
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