Nos últimos dias foi publicado na imprensa nacional o artigo “O clube dos negócios estranhos”, do sociólogo e ex-presidente do Conselho Nacional de Educação Luiz Roberto Liza Curi, no qual o autor apresenta uma reflexão crítica sobre a expansão da educação superior brasileira nas últimas décadas.

O texto traz uma provocação importante ao debate público: a expansão quantitativa do ensino superior no país teria ocorrido com limitada articulação com as necessidades reais de desenvolvimento econômico e social, produzindo efeitos contraditórios para o país.

Segundo dados apresentados no artigo, o número de matrículas no ensino superior brasileiro passou de cerca de 1,9 milhão em 1997 para mais de 10 milhões em 2024, sendo que aproximadamente 80% dessas matrículas encontram-se em instituições privadas, com crescimento expressivo da educação a distância.

Trata-se, sem dúvida, de uma das maiores transformações estruturais do sistema educacional brasileiro nas últimas décadas. Esse processo ampliou significativamente o acesso de parcelas da população que historicamente estavam excluídas do ensino superior.

Contudo, o artigo levanta uma questão relevante: até que ponto essa expansão esteve acompanhada de uma estratégia consistente de desenvolvimento nacional baseada no conhecimento, na ciência e na inovação?


Expansão educacional e produtividade econômica

O autor chama atenção para um fenômeno que tem sido observado por diversos estudos nacionais e internacionais: o aumento da escolarização superior no Brasil não foi acompanhado por um crescimento proporcional da produtividade econômica.

Esse descompasso entre educação superior, inovação e crescimento econômico constitui hoje um dos principais desafios estruturais do país.

Diversas análises têm mostrado que economias que conseguiram transformar educação em desenvolvimento sustentado – como Coreia do Sul, China, Finlândia e Israel – fizeram isso articulando de forma estratégica:

  • universidades
  • pesquisa científica
  • inovação tecnológica
  • política industrial
  • formação profissional.

No caso brasileiro, a expansão educacional ocorreu em grande medida sem a consolidação de um projeto nacional que integrasse esses elementos.


Currículos, competências e formação profissional

Outro ponto destacado no artigo refere-se ao fato de que muitos currículos universitários permanecem fortemente estruturados em torno de conteúdos disciplinares, enquanto as transformações tecnológicas e produtivas contemporâneas exigem crescente desenvolvimento de:

  • habilidades analíticas
  • competências digitais
  • capacidade de inovação
  • resolução de problemas complexos
  • trabalho interdisciplinar.

Essa discussão torna-se ainda mais relevante em um contexto marcado pela rápida transformação das profissões decorrente da inteligência artificial, da automação e da economia digital.


Avaliação da educação superior

O texto também levanta reflexões sobre os sistemas de avaliação do ensino superior no país, que historicamente se concentraram em indicadores institucionais e curriculares.

Embora esses instrumentos tenham desempenhado papel relevante na regulação e no acompanhamento da expansão do sistema, cresce no debate internacional a necessidade de incorporar métricas capazes de avaliar também:

  • competências efetivamente desenvolvidas pelos estudantes
  • impacto social e econômico da formação
  • inserção profissional dos egressos
  • contribuição para inovação e desenvolvimento regional.

Expansão com inclusão e qualidade

O Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo (IVEPESP) considera importante reconhecer que a expansão da educação superior brasileira também produziu avanços relevantes.

Entre eles destacam-se:

  • a ampliação do acesso de estudantes de primeira geração universitária
  • a interiorização da oferta educacional
  • o crescimento da participação feminina em diversas áreas
  • o aumento da diversidade social no ambiente universitário.

O desafio central, portanto, não é reverter a expansão do ensino superior, mas qualificá-la e integrá-la de forma mais consistente às estratégias nacionais de desenvolvimento científico, tecnológico e produtivo.


A necessidade de um projeto nacional de conhecimento

O debate suscitado pelo artigo reforça a importância de o Brasil avançar na construção de uma política nacional de conhecimento, capaz de articular de forma estratégica:

  • educação básica e superior
  • ciência e tecnologia
  • inovação
  • inteligência artificial
  • formação de recursos humanos para setores estratégicos.

Esse esforço exige planejamento de longo prazo, cooperação entre universidades, setor produtivo e governo, além de políticas públicas orientadas por evidências.

Nesse contexto, torna-se particularmente relevante fortalecer instrumentos de análise e acompanhamento do sistema educacional brasileiro, incluindo o uso intensivo de dados educacionais, indicadores de desempenho e estudos comparados internacionais.


Conclusão

O debate apresentado no artigo “O clube dos negócios estranhos” contribui para recolocar em pauta uma questão central para o futuro do país: como transformar a expansão da educação superior em um verdadeiro motor de desenvolvimento econômico, científico e social.

O Brasil possui universidades de excelência, centros de pesquisa reconhecidos internacionalmente e uma comunidade científica altamente qualificada. O desafio consiste agora em integrar esses ativos em uma estratégia nacional capaz de transformar conhecimento em prosperidade, inovação e bem-estar para a sociedade.

O IVEPESP continuará acompanhando e contribuindo para esse debate, defendendo políticas públicas que fortaleçam a qualidade da educação superior brasileira e sua articulação com os grandes desafios do desenvolvimento nacional.


Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/
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