NOTA TÉCNICA DO IVEPESP
Agro brasileiro em ciclo de baixa: mitigação imediata, inteligência artificial e agenda estrutural
São Paulo, 18 de fevereiro de 2026
O Instituto para Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo (IVEPESP) manifesta preocupação com o atual cenário do agronegócio brasileiro, marcado por compressão de margens, aumento da inadimplência e dificuldades financeiras em diversas cadeias produtivas.
O agro representa um dos pilares estruturais do Produto Interno Bruto brasileiro, das exportações e da geração de divisas. Em diversos anos recentes, o complexo agroindustrial respondeu por mais de 20% do PIB e por parcela próxima à metade das exportações nacionais. Trata-se, portanto, de setor estratégico cuja estabilidade impacta o equilíbrio macroeconômico do país.
O momento exige serenidade, racionalidade técnica e ação coordenada. A história do agro brasileiro demonstra que os ciclos passam — mas também evidencia que a superação dos momentos críticos sempre esteve associada à incorporação tecnológica, à gestão profissional e à previsibilidade institucional.
I. Diagnóstico Estrutural: Ciclo de Commodities e Vulnerabilidade
A agropecuária brasileira está inserida em ciclos globais de commodities. O país experimentou dois grandes superciclos (1970–1986 e 2001–2014) e, após ganhos expressivos até 2023, entrou em fase de ajuste com redução da rentabilidade.
Três características estruturais definem o momento:
- Forte dependência do mercado internacional
- Estrutura produtiva pulverizada (produtores tomadores de preço)
- Margens altamente sensíveis a câmbio, logística e custo financeiro
A atual crise é cíclica, mas sua intensidade pode gerar efeitos sistêmicos se não houver atuação técnica e coordenada.
II. Onde o Governo Pode Atuar de Imediato
1. Reestruturação coordenada do crédito rural
A prioridade é evitar insolvência sistêmica.
Medidas possíveis:
- Alongamento de prazos
- Reperfilamento de dívidas
- Ampliação temporária de garantias via fundos garantidores
- Linhas emergenciais com spreads calibrados
O objetivo não é subsidiar ineficiências, mas preservar capacidade produtiva.
2. Estabilidade regulatória e previsibilidade
Em ciclos de baixa, a incerteza amplifica o risco.
É fundamental:
- Evitar mudanças abruptas em regras tributárias e ambientais
- Garantir previsibilidade nas regras de exportação
- Manter disciplina fiscal para reduzir volatilidade cambial
O custo da insegurança jurídica é exponencial em momentos de margem estreita.
3. Logística e redução de custos sistêmicos
Medidas de impacto direto:
- Aceleração de concessões logísticas
- Redução de gargalos portuários
- Simplificação aduaneira
- Digitalização de certificações sanitárias
Cada ponto percentual de redução de custo logístico representa ganho imediato de competitividade.
4. Seguro rural e gestão de risco
O seguro rural ainda é subdimensionado no Brasil.
Ações estruturantes:
- Ampliação da subvenção ao prêmio
- Uso de modelagem atuarial baseada em dados
- Integração de inteligência artificial para avaliação de risco climático
III. O Papel Estratégico da Inteligência Artificial
A crise atual não deve ser enfrentada apenas com crédito, mas com aumento estrutural de eficiência.
A Inteligência Artificial pode atuar em três níveis:
1. Antecipação de ciclos e gestão de risco
- Modelos preditivos de preços internacionais
- Simulação de cenários cambiais
- Análise de volatilidade global
- Estratégias inteligentes de hedge
A IA não elimina ciclos, mas reduz assimetria de informação.
2. Aumento de produtividade no campo
- Agricultura de precisão
- Previsão hiperlocal de clima
- Detecção precoce de pragas via drones e imagens satelitais
- Otimização do uso de fertilizantes e insumos
- Modelos preditivos de produtividade por talhão
A produtividade continua sendo a principal variável sob controle do produtor.
3. Gestão profissional do negócio rural
- Controle de custos em tempo real
- Modelos preditivos de fluxo de caixa
- Análise automatizada de risco de crédito
- Integração entre produção, comercialização e logística
Em ciclos de baixa, gestão baseada em dados determina sobrevivência.
IV. Agenda Estrutural: Ir Além da Commodity
O Brasil não pode permanecer exclusivamente dependente da exportação de produtos primários.
Medidas estratégicas incluem:
- Integração entre agro e indústria
- Estímulo à agroindústria e bioeconomia
- Incentivo à química verde e biocombustíveis
- Digitalização e inovação tecnológica
- Convergência entre agro, ciência de dados e inteligência artificial
Quanto maior o valor agregado, menor a vulnerabilidade aos ciclos globais.
V. O Que Evitar
O IVEPESP ressalta que políticas mal calibradas podem agravar o problema:
- Subsídios indiscriminados
- Intervenções artificiais de preços
- Expansão fiscal descontrolada
- Medidas protecionistas que provoquem retaliação comercial
A solução não está em distorcer o mercado, mas em fortalecer eficiência, governança e inovação.
Conclusão
O ciclo de baixa é real, mas não estruturalmente terminal.
O agro brasileiro construiu sua posição global com:
- Ciência
- Tecnologia
- Produtividade
- Inserção internacional
A atuação governamental deve mitigar riscos imediatos e, simultaneamente, acelerar a transição para um modelo mais intensivo em dados, tecnologia e valor agregado.
Muita calma — mas também muita técnica, inteligência artificial e gestão qualificada.
O IVEPESP reafirma seu compromisso com uma agenda baseada em evidências, inovação e competitividade estrutural para o agronegócio brasileiro.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/
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