São Paulo, 17 de fevereiro de 2026
O Brasil possui atualmente o maior número de cursos de Direito do mundo. O crescimento acelerado nas últimas décadas ampliou o acesso ao ensino jurídico, mas também intensificou o debate sobre qualidade acadêmica, formação prática, desempenho no Exame da OAB e adequação às demandas contemporâneas da profissão.
Diante desse cenário, surge a pergunta inevitável: a Inteligência Artificial pode ser parte da solução?
1. O problema estrutural
A expansão quantitativa do ensino jurídico não foi acompanhada, em muitos casos, por:
- corpo docente com dedicação acadêmica consistente;
- integração entre teoria e prática;
- cultura de pesquisa jurídica;
- formação em raciocínio argumentativo estruturado;
- avaliação baseada em competências reais.
O resultado é heterogêneo: coexistem cursos de excelência com outros que apresentam fragilidades evidentes.
2. A IA como ferramenta de qualificação — não de substituição
A IA pode contribuir de forma relevante, desde que utilizada estrategicamente. O IVEPESP identifica quatro frentes principais:
(1) Aprimoramento do ensino de argumentação
Ferramentas baseadas em LLMs permitem simular:
- construção de peças processuais;
- análise crítica de decisões;
- aplicação do método IRAC;
- estruturação de argumentos segundo o modelo de Stephen Toulmin.
Isso pode elevar o padrão de treino argumentativo, sobretudo em cursos com menor tradição acadêmica.
(2) Feedback individualizado em larga escala
A IA permite oferecer:
- correção preliminar de peças;
- análise de coerência argumentativa;
- identificação de falhas lógicas;
- comparação com padrões jurisprudenciais.
Instituições com turmas numerosas poderiam utilizar IA como assistente pedagógico, ampliando a qualidade do acompanhamento.
(3) Democratização de acesso a acervos jurídicos
Plataformas inteligentes podem:
- sintetizar jurisprudência;
- comparar precedentes;
- mapear divergências doutrinárias;
- auxiliar na pesquisa legislativa.
Isso reduz assimetrias entre faculdades centrais e periféricas.
(4) Formação para o mercado contemporâneo
A prática jurídica já está sendo impactada por tecnologias discutidas há décadas por autores como Richard Susskind. Ignorar a IA na formação jurídica é formar profissionais para um mercado que já não existe.
3. Mas a IA não resolve o problema central
O IVEPESP alerta: a IA não corrige deficiências estruturais de governança acadêmica.
Ela não substitui:
- professores bem formados;
- rigor metodológico;
- cultura de leitura aprofundada;
- ética profissional;
- responsabilidade institucional.
Há, inclusive, riscos:
- dependência acrítica de respostas automáticas;
- superficialização do aprendizado;
- plágio sofisticado;
- falsa sensação de domínio técnico.
Se mal utilizada, a IA pode amplificar a fragilidade existente.
4. O ponto decisivo: qualidade do uso
A questão não é se a IA será utilizada — ela já está sendo.
A questão é quem dominará seu uso com critério técnico e pedagógico.
Faculdades que incorporarem IA:
- como ferramenta de treino cognitivo,
- com supervisão docente,
- integrada a avaliação estruturada,
- com protocolos de transparência,
tenderão a elevar seu padrão.
Faculdades que simplesmente tolerarem seu uso informal tenderão a aprofundar problemas.
5. A oportunidade estratégica para o Brasil
O Brasil tem hoje um paradoxo:
- Maior número de cursos de Direito do mundo;
- Baixa média de desempenho em exames de habilitação;
- Mercado jurídico saturado em algumas áreas e carente em outras.
A IA pode funcionar como:
- acelerador de qualidade,
- instrumento de equalização,
- mecanismo de padronização argumentativa,
- ferramenta de transparência avaliativa.
Mas somente se houver:
- regulação clara;
- investimento em capacitação docente;
- métricas baseadas em competência;
- cultura de responsabilidade acadêmica.
6. Conclusão
A Inteligência Artificial não é solução automática para o problema da qualidade do ensino jurídico no Brasil.
Mas pode ser parte relevante da solução — se incorporada com:
- método,
- supervisão,
- responsabilidade,
- visão estratégica.
O desafio não é tecnológico.
É institucional.
O Brasil precisa decidir se usará a IA para elevar o padrão de suas faculdades de Direito — ou se permitirá que ela apenas exponha as fragilidades já existentes.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/
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