NOTA INSTITUCIONAL DO IVEPESP
O “Êxodo” da Ciência da Computação e o Risco de Mais um Atraso Estratégico do Brasil
São Paulo, 16 de fevereiro de 2026
O Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo (IVEPESP) manifesta atenção estratégica ao fenômeno recentemente descrito pelo TechCrunch acerca do chamado “grande êxodo” dos cursos tradicionais de Ciência da Computação nos Estados Unidos.
Segundo a reportagem, sistemas como o da University of California registraram queda nas matrículas em Ciência da Computação após anos de crescimento contínuo. Ao mesmo tempo, universidades como o Massachusetts Institute of Technology ampliam programas fortemente orientados à Inteligência Artificial, decisão algorítmica e aplicações interdisciplinares.
Não se trata de abandono da tecnologia — trata-se de reconfiguração estrutural da formação tecnológica.
1. O fenômeno internacional: migração, não retração
Os dados indicam que estudantes não estão deixando o campo tecnológico; estão migrando de cursos tradicionais de Ciência da Computação para formações mais diretamente associadas à Inteligência Artificial, ciência de dados, aprendizado de máquina e aplicações setoriais.
Esse movimento sinaliza:
- Busca por maior aderência ao mercado emergente.
- Percepção de que a própria programação tradicional pode ser automatizada.
- Valorização da interdisciplinaridade aplicada.
Estamos diante de uma mudança de eixo na educação tecnológica global.
2. O risco brasileiro: repetir o padrão de atraso
O IVEPESP tem reiterado, em notas institucionais anteriores, que o Brasil frequentemente reage com atraso a transformações estruturais. Esse padrão já foi observado em diferentes frentes:
a) Formação médica e expansão desordenada
Na recente nota sobre o ENAMED e a Portaria nº 129 do MEC, alertamos que o país expandiu cursos de Medicina sem estrutura assistencial proporcional. A correção veio após evidências de desempenho crítico — isto é, primeiro expandimos, depois regulamos.
b) Política industrial e competitividade
Nas notas conjuntas com lideranças industriais (Coalizão Indústria / ABIPLAST), apontamos que o debate eleitoral tende a capturar agendas de curto prazo enquanto temas estruturantes — produtividade, inovação, ambiente de negócios — ficam em segundo plano.
c) Inteligência Artificial na educação
Em reflexão inspirada no texto de Carl Hendrick, destacamos que a velocidade da IA supera o ciclo tradicional de pesquisa e regulação. O risco é produzir políticas públicas baseadas em diagnósticos já obsoletos.
O padrão se repete:
a transformação ocorre → o Brasil hesita → o mundo avança → regulamos ou reformamos tardiamente.
3. Ciência da Computação e IA: o ponto de inflexão
Se as principais universidades do mundo estão reformulando seus currículos, o Brasil precisa evitar dois extremos:
- Imobilismo curricular, mantendo matrizes de 10 ou 15 anos atrás.
- Modismo superficial, criando cursos de “IA” sem base matemática e estatística robusta.
A Inteligência Artificial não substitui os fundamentos da computação; ela os exige com ainda mais profundidade.
4. Diretrizes estratégicas propostas pelo IVEPESP
O IVEPESP sugere:
- Atualização das Diretrizes Curriculares Nacionais em Computação.
- Integração formal entre IA, engenharia, saúde, indústria e políticas públicas.
- Reforço da formação em matemática, estatística e teoria da computação.
- Criação de observatórios permanentes de tendências internacionais em educação tecnológica.
- Estímulo à pesquisa aplicada voltada à produtividade e competitividade nacional.
5. O ponto central: não podemos chegar atrasados novamente
O fenômeno descrito internacionalmente não é episódico — é estrutural.
O Brasil precisa decidir se continuará reagindo a mudanças globais ou se passará a antecipá-las. Educação tecnológica não é apenas tema acadêmico; é eixo de soberania econômica, industrial e científica.
O IVEPESP reafirma que políticas educacionais e científicas devem ser baseadas em evidências, planejamento estratégico e visão de longo prazo — sob pena de repetirmos ciclos históricos de atraso.
O momento exige lucidez, técnica e coragem institucional.
Atenciosamente,
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/
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