NOTA INSTITUCIONAL DO IVEPESP
Inteligência Artificial, Produção Científica e o Risco Estrutural de o Brasil Chegar Sempre Depois
São Paulo, 15 de fevereiro de 2026
O Instituto para Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo (IVEPESP) considera que o debate sobre a defasagem da pesquisa em Inteligência Artificial não é apenas um problema metodológico internacional — é um alerta estratégico para o Brasil.
O texto de Carl Hendrick aponta um fato incontornável: quando estudos sobre IA educacional são publicados, o modelo analisado já pertence a uma geração tecnológica superada. Esse fenômeno é particularmente grave em países que já operam com histórico de atraso estrutural em ciência, inovação e políticas públicas.
O problema: a tecnologia evolui em meses, a ciência publica em anos
A evolução dos grandes modelos de linguagem ilustra o ponto:
- O GPT-3.5 obteve cerca de 54% em exames padronizados.
- O GPT-4 elevou esse desempenho para aproximadamente 75%.
- O GPT-4o alcançou 94% no UK Medical Licensing Applied Knowledge Test.
Não se trata de evolução incremental — são saltos qualitativos.
Enquanto isso, periódicos científicos na área de educação operam com ciclos de 12 a 24 meses entre submissão e publicação. A consequência é o que podemos chamar de “evidência defasada”: decisões atuais baseadas em fotografias tecnológicas de dois anos atrás.
O Brasil já conhece esse padrão
O IVEPESP já alertou, em notas anteriores, que o país insiste em reagir tardiamente a transformações estruturais. O caso da IA apenas reproduz um padrão histórico.
Alguns exemplos recentes:
1️⃣ Formação Médica e ENAMED
Na análise dos microdados do ENAMED 2025, o IVEPESP destacou que a expansão de cursos de Medicina ocorreu de forma desproporcional à infraestrutura hospitalar. A resposta regulatória veio apenas após os dados evidenciarem o problema — quando milhares de estudantes já estavam matriculados.
2️⃣ Megauniversidades e EAD
Na discussão sobre megauniversidades e expansão do ensino a distância, o IVEPESP já advertiu que decisões normativas frequentemente são tomadas com base em diagnósticos atrasados, enquanto o modelo educacional global já evoluiu.
3️⃣ Escala 6×1 e Custo do Trabalho
No debate sobre a possível proibição da escala 6×1, destacamos que decisões sem modelagem econômica prospectiva podem gerar efeitos indesejados sobre emprego formal, arrecadação previdenciária e informalidade. Mais uma vez, o risco é reagir aos efeitos, não antecipar as causas.
4️⃣ Indústria e Competitividade
Na agenda estratégica construída com lideranças industriais, enfatizamos que o Brasil frequentemente responde ao cenário geopolítico global apenas depois que a janela de oportunidade já se fechou.
O risco na Inteligência Artificial
Se o Brasil tratar a IA com a mesma lógica reativa, repetirá o ciclo:
- Regulamentação baseada em modelos já superados;
- Proibições fundamentadas em evidências tecnicamente corretas, porém tecnologicamente obsoletas;
- Formação docente desenhada para ferramentas que já evoluíram;
- Políticas públicas baseadas em relatórios defasados.
Em um cenário em que as capacidades de modelos de linguagem dobram aproximadamente a cada sete meses, a lentidão institucional não é apenas ineficiência — é perda estratégica.
O que permanece válido?
A ciência cognitiva continua sendo um alicerce sólido:
- Feedback de qualidade importa.
- Mediação humana importa.
- Implementação pedagógica importa.
- Formação docente importa.
O que se torna rapidamente obsoleto são avaliações específicas de desempenho de versões tecnológicas.
Propostas do IVEPESP
Para evitar que o Brasil “chegue atrasado” também na IA, o IVEPESP propõe:
- Obrigatoriedade de “timestamp tecnológico” em pesquisas publicadas (modelo, versão e data de coleta).
- Revisões sistemáticas vivas, atualizadas continuamente.
- Integração entre academia e documentação técnica, benchmarks e relatórios de implementação prática.
- Estrutura regulatória adaptativa, com revisões periódicas obrigatórias.
- Monitoramento prospectivo nacional, envolvendo universidades, indústria e setor público.
Conclusão
A Inteligência Artificial expõe um problema maior: o Brasil ainda opera sob lógica institucional do século XX para regular tecnologias do século XXI.
Se continuarmos produzindo evidência com atraso, regulamentando com atraso e formando pessoas com atraso, perpetuaremos um ciclo de dependência tecnológica.
O alerta é claro:
Não basta discutir IA. É preciso discutir a velocidade institucional do Brasil.
A ciência não pode chegar “dead on arrival”.
E o país também não.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/
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